segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Com os burros n'água.




Fato.
A gente aprende a planejar as coisas desde pequeno e o planejamento é fundamental para que evitemos dar com os burros n'água. Certo?
Certo, porém nem sempre acontece como a gente imagina e o planejamento que às vezes passou por tantos longos processos, é evaporado como a fumaça de um cigarro na boca de uma pinup blasé. E os burros acabam mais ensopados do que os cabelos de um jogador de futebol durante um treino sob um sol de 45 graus.
Aprendi que planejamento é tudo na vida, então desde os primórdios aprendi a planejar.
O planejamento de certa forma começa quando você está prestes a sair do colégio.
O que você quer ser? Que profissão pretende seguir? Ou não pretende seguir nada? Ou pretende não pretender? Ou seguinte não pretendente? As perguntas por parte dos pais e dos professores pipocam na nossa cabeça como uma rave incessante de piolhos desesperados.
E você tem que.
Você sempre tem que.
Você tem que tomar a decisão, você tem que estudar para se destacar, você tem que decidir o que vai fazer porque na sociedade em que vivemos quem não decide o que vai fazer, não tem vez.
Eu vou ser bem sincera que desde a época do colégio, época esta inclusive onde eu era a melhor aluna em ser a pior, a coisa que eu mais queria mesmo era largar aquele monte de fórmula insuportável e a função das mitocôndrias, para fazer qualquer coisa que não fosse estar lá. Mas em relação ao tal objetivo, como sempre tive a mente um tanto quanto fértil, pra não dizer uma mente doentia, achei que publicidade seria um caminho. Afinal, eu adorava criar coisas. Criar palavras. Criar histórias. Mas aí o colégio me apresentou ao mundo do teatro, e naquelas pecinhas executadas pelos alunos, descobri o vício que é ser alimentado pelos olhares, risos e aplausos de uma plateia.
Mas enfim, nada de mal em se atriz, mas eu tinha que passar de ano. Só que as notas me ajudavam pouco e as recuperações acumulando menos ainda.
Eu não prestava atenção.
Eu não queria prestar atenção.
Eu não gostava de prestar atenção.
Preferia ficar desenhando coisas macabras na carteira e passando trote a cobrar no celular dos outros, embaixo do blusão com minha amiga sapata enquanto o professor aos berros pedia para que parássemos de atrapalhar a aula.
Convenhamos, eu não era bagunceira, mas causava um certo incômodo nos professores enquanto dormia com a cabeça embaixo da cortina ou enquanto trocava bilhetes com meio mundo de amigas.
O seno e o co-seno nunca me pegaram de jeito. Mitocôndrias muito menos e política do café com leite a única coisa que me causava era fome. A escola não me interessava. O que me interessava era escrever. Escrever poesias nas carteiras, no caderno, escrever crônicas, contos, histórias, desenhar flores, pessoas, vestidos e animais.
Mas enfim, eu tinha que decidir e não prestar o vestibular não era uma opção.
Como eu adorava escrever e escrevia muito bem, passei em publicidade na FAAP graças à redação, na qual tirei 8, pois as questões de múltipla escolha foram uma desgraça.
Olha, pra resumir bem a história, eu não fui fazer a FAAP porque era caríssimo.
Então aí começa a história de uma série de burros que acabei por deixar na água ao longo da vida.
A paixão pelo teatro gritava como uma criança com a virilha assada. Então resolvi (não planejei, resolvi) que estudaria teatro. Seria atriz, afinal, estava mais do que na cara que eu havia nascido para ser atriz. Eu sabia. Eu sentia. Eu praticamente já era!
Então eu fui.
E pra ajudar a pagar o curso no Wolf Maya, fui tentar ganhar uma grana numa profissão super condizente com a realidade de uma adolescente de 18 anos: tosadora de cães.
Bom, eu gostava de cachorros, precisava de dinheiro, então que mal tinha em fazer um curso de banho e tosa? Era por um motivo glorioso: ser atriz!
Então lá fui fazer o bendito curso de banho e tosa, o que me resultou em dores terríveis na coluna e no pescoço, por ter que ficar carregando cachorros pesados, molhados e despedaçados de uma mesa para outra, de um tanque para o outro.
Depois de algumas tosas mal sucedidas, achei melhor parar com aquilo.
Fui procurar um emprego que pudesse valer a pena. Mas recém saída da escola e sem experiência nenhuma, a única coisa que restou foi trabalhar num telemarketing ativo, onde não durei 3 dias.
Dá pra ver que minha vida é cheia de glórias, certo?
Eu sempre desejei as coisas muito intensamente, mas tenho horror a ser infeliz. E o modelo "sentada ouvindo reclamação de gente grossa e mal comida para no final do mês receber um salário tão pequeno quanto os instintos de caridade de um psicopata" não era bem um modelo que me agradava.
Pedi as contas.
E mais uma vez estava eu sem saber que rumo dar à minha vida.
Mas ok, tudo isso não me impediu de estudar no Wolf Maya.
Eu fui. Passei no teste. Foi uma alegria. Uma alegria que durou 6 meses, porque obviamente quando consegui aquilo que queria, vi que aquilo que eu queria não era bem aquilo que eu queria. Além disso o curso, na minha opinião, era raso e sem perspectivas.
Decidi então tentar de outra forma e fazer faculdade de teatro.
E fui.
Novamente.
Prestei o vestibular. Passei. Foi uma alegria.
Uma alegria que durou 1 ano, pois percebi que aquilo que eu queria não era bem aquilo que eu queria. Certa vez me caiu uma ficha que fez com que eu acreditasse que não ia rolar ser atriz. E não rolou.
Então saí da faculdade de teatro e resolvi ir pra um lugar onde hahaha houvesse perspectiva.
Fui prestar novamente pra publicidade.
Prestei o vestibular.
Passei.
Foi uma alegria.
Uma alegria que durou 2 anos, pois percebi que aquilo que eu queria não era bem aquilo que eu queria.
Mas pelo menos consegui pegar um diploma de tecnólogo em gestão de comunicação empresarial e posso hoje dizer que tenho um curso superior.
Mas depois disso ainda tive muitas peripécias.
Trabalhei no faturamento de uma loja de ar condicionado, ainda voltei a trabalhar como telemarketing (desta vez no receptivo da Atento) e anos depois comecei a trabalhar com vídeo.
Sim, de uma quase-tosadora, quase-atriz e ex-telemarketing, fui parar na área de vídeo.
Anos se passaram.
Anos o suficiente pra eu começar a já me preocupar em passar renew. E já com meus 25 e tralalá resolvi que meus burros uma hora iam acabar mofando dentro da água e definitivamente estava na hora de passar neles um secador.
Graças a um acontecimento que na época pra mim foi a pior coisa do mundo, hoje posso dizer que ando com meus burros mais secos do que o Roberto Justus no Aprendiz. Um acontecimento que me impulsionou a querer uma coisa de verdade, talvez mais de verdade do que das outras vezes.
Então eu ralei.
Ralei.
Ralei mais que um bloco de parmesão na fábrica dos queijos Teixeira.
Chutei móveis.
Mordi paredes.
Mastiguei pedaços de mim.
Mas depois de muito
Muito tempo
Depois de trabalhar feito uma escrava precisada, passar noites em claro, sem direito à feriados, férias ou finais de semana,consegui o que eu realmente sempre quis desde o começo: o primeiro passo para a minha independência.
Bem, a data do casamento com meu noivo estava marcada, tudo acertado e os modelos do vestido de noiva, salvos no email. Eu finalmente seria o modelo correto de felicidade e sucesso exatamente igual às minhas amigas do colegial e da faculdade que postam suas fotos de noiva no facebook e algum tempo depois exibem seus bebês lindos, gordos e rosados com seus sorrisos perfeitamente desdentados e assimétricos.
Eu estava caminhando para a felicidade. Para o sucesso.
Estava fazendo tudo certo, como sempre deveria ter feito. Estava falando de buffets, como a maioria delas. Estava escolhendo vestidos, como a maioria delas. Estava pensando na decoração, como a maioria delas. E em poucos meses eu teria um bebê gordo e cor-de-rosa para exibir no meu facebook e postaria vídeos dele falando "mamã" ou "abafutsfa".
Estava tudo certo.
Estava tudo no lugar.
As caixinhas separadas por ordem alfabética e em degradê.
Eu amava a família dele. Ele amava a minha família e as duas famílias se amavam.
De fato seria bonito, isso eu não posso negar.
Só que se você parar de ler este texto aqui e voltar a história, vai perceber que eu tenho uma tendência para dar com meus famigerados burros na água.
Eu não sou convencional.
E muito do que planejei não deu certo.
E minha vida foi uma tentativa dramática de fazer dar certo e muitas vezes não deu.
E eu só queria ser feliz.
E eu só queria dar orgulho para as pessoas que me amam, porque eu fazia tudo errado.
E que eu
Sou completamente pirada.
Você pode até rir das minhas desordens, mas eles me dão muito mais rumo do que organizar a minha vida por ordem alfabética em caixinhas degradê. E se uma hora eu dei com os burros n'água, hoje eles estão secos e lustrosos. Mas eu sei no meu íntimo, que às vezes fica calor demais, e aí...
Você já viu né?
Mais uma vez não saiu como planejado e eu deixei um rastro de caos pelo meu caminho.
E talvez quando eu menos imaginar, entre tapas e beijos, voltas e desvoltas, incertezas e marshmallows, talvez eu apareça com um bebê gorducho na barriga, e dê a ele um nome que não tem nada a ver com esses aí que vocês dão para os seus.
O que posso dizer por hora é que eu não me casei porque acabei me apaixonando por outra pessoa. Com a grana toda do casamento eu resolvi alugar uma casa e descolar duas cachorras, sendo que uma delas come paredes, roupas e mangueiras e que é pau mandado da outra que é cem mil vezes menor que ela. E que além de tudo isso eu tenho bule de vaca, paredes roxas e um tapete monocromático. Além de 2 hamsters mais dóceis do que espíritos de luz querendo passar mensagens de paz num centro de mesa branca.
Às vezes moro com meu namorado, às vezes não. Às vezes a gente tem vontade de se atirar panelas mas acordamos abraçados juntinhos.
Às vezes a gente fala até de se casar no papel, mesmo sendo eu como água e ele como óleo, mas quer saber?
A gente planeja, a vida vai lá e desplaneja. E além disso, mesmo eu tendo vontade de matar ele às vezes, os cachos daquele cabelo ficam insuperáveis quando bate um vento de praia.
Minha mãe ri da minha situação, é certo que acha absurdo, como tudo o que eu faço.
Mas mãe, a senhora já não tá acostumada?
Tua filha aqui vive dando com os burros n'água
E talvez este seja o meu jeito torto
De manter a minha vida certa.
A propósito.
Aos 29 estou começando uma faculdade nova, desta vez de jornalismo.
Vamos ver até quando dura essa felicidade?
De repente, se eu não planejar, vai que acabo me formando?
Rsrs

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