quarta-feira, 12 de março de 2014

Um péssimo dia para ir ao parque.

Acordei me perguntando o que raios me movia.
Obviamente, a vida dentro de mim.
A vida de alguém que existe mas não sente o pulsar lancinante da vitalidade.
Irônico.
O mesmo pulsar que me fez sentir viva há algum tempo atrás, agora faz com que eu sinta dezenas e mais dezenas de sacolas plásticas murchando dentro do coração.
Vejo as cores de um parque de diversão desbotarem. Os brinquedos começam a ranger lentamente cedendo à ferrugem. As crianças vomitam, sentem-se tontas e vão embora uma a uma.
As flores que decoram os cantos, vão acinzentando e o tempo começa a nublar.
Num canto frio do parque eu me sento e olho o mundo colorido e virginal perder seu tom.
Mas as contas pra pagar aumentam e de nada adiantaria observar o parque de longe, era preciso caminhar por ele e resolver as questões.
Entro no camarim cheirando à mofo, pego a sombra preta e passo nos olhos, respirando fundo demais pra não deixar que as lágrimas tenham a ousadia de rolar por este rosto.
Passo o lápis de olho e tudo à minha volta soa absolutamente ridiculo.
É a vez do blush tirar o tom cadavérico das bochechas. O mundo precisa pensar que eu sobrevivi às agruras de um parque estragado. O mundo precisa saber que eu estou de pé, pensando que eu estou consertando um brinquedo de cada vez, regando uma planta de cada vez.
Aceno sorridente para as pessoas de fora do parque, quando no fundo, tenho vontade de estrangulá-las com as ferramentas que sobraram.
Entrem no meu parque! Sintam-se à vontade! E não reparem o cheiro de merda, a tinta descascada e os ganidos caninos ecoando como num filme de terror.
Está tudo uma bosta, mas fiquem tranquilos! Tá vendo essa merda do blush nas minhas bochechas? É vitalidade pura! Tá vendo aquela roda gigante? Logo logo estará funcionando como nova, mas pode subir. Mas não me responsabilizo se você cair e estourar seus miolos no chão. Estes miolos da tua vida pequena e superficial, rasa, sem graça e sem sal.
É tudo uma bosta! Mas eu? Estou firme e forte trabalhando, estou ótima! Não vê meus cabelos perfeitos, meu gloss envolvente?
Um a um vão adentrando ao meu recinto e um a um começam a sentir o peso da minha dor.
E começam finalmente a entender que NÃO! Eu não me importo com os seus achismos estúpidos, a única coisa que eles fazem é me incomodar e ter vontade de partir sua cara no meio. Eu não me importo com seu bom humor, com seu ego, com sua fama, com seus músculos e com seus saltos. Porque a vida de todos vocês é tragicamente medíocre, e acho até que um pouco mais medíocre do que se tornou a minha.
Porque eu estou largada às traças mas pelo menos eu tenho alguma coisa, ainda que a única coisa seja a dor.
Melhor do que não ter nada, não ser nada ainda que parecer ser alguma coisa.
É dor, mas é dor real.
E essa dor me move ao menos para escrever. E a tua dor, torna-te ainda mais mesquinho e hipócrita.
Dor por dor, a minha eu ainda encaro.

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