quinta-feira, 10 de julho de 2014

Preciso voltar

Comprando coisas demais. Coisas que nem preciso.
Tentando mudar tudo de lugar, tentando me mudar.
Tentando preencher este vazio com qualquer coisa que me vem à cabeça.
Mas enquanto eu estiver ausente de mim, nada vai preencher.
Enquanto eu estiver ausente de mim
Vou continuar me olhando no espelho sem ver o que quero ver
Vou continuar olhando para o futuro e vendo uma página em branco.
Tenho 29, não posso mais perder tempo somando tristezas.
Sinto saudade de mim. Sinto saudade de quem eu era.
De quem eu fui.
Sinto saudade de não precisar matar um pouquinho de mim todos os dias
Para poder sobreviver.
Que irônico, não?
Mas uma hora vou acabar matando o que é fundamental
Até que não me reste absolutamente nada.
E não falta muito.
Sinto falta dos meus ataques de riso
Da minha leveza
Do meu jeito
Do brilho nos meus olhos
Da minha vitalidade
Dos meus sonhos.
Ah, os meus sonhos!
Como sinto falta dos meus sonhos.
Como sinto falta da certeza de saber que seriam realizados.
Me foi sugerido análise, psiquiatra, terapia
Mas parece que nada disso tem funcionado muito bem.
Talvez eu precise de um tempo no Tibet
Vivendo como os monges e respirando fundo até encontrar um sentido pra mim.
Meu Deus! Tenho 29! Não dá mais tempo de ser infeliz!
Preciso voltar a rir, a gargalhar, a me inspirar, a sonhar.
Estou vivendo como se já tivesse morrido!
E cada dia mais eu perco um pouco de mim.
Um amigo me disse que não cabe mais nessa minha nova realidade.
Porque mudei muito.
E ele não concorda muito bem com essa nova pessoa que sou
E que um dia perceberei que mudei tanto
Que começarei a atrair novas pessoas e novas situações
Que não tem mais nada a ver com o que eu era
E aí a minha vida toda será distorcida:
Meus valores, minhas crenças e pior: até mesmo meu caráter!
Então ele disse: "Adeus".
Mas eu não quero mudar
Eu gostava de como eu era
Eu até me admirava e hoje sinto uma decepção profunda pelo que venho me tornando.
E essa tristeza infinda se dá justamente porque porque lá no fundo
Meu eu verdadeiro grita porque não quer essa mudança.
Preciso voltar.
Preciso voltar urgente pra me resgatar!

quarta-feira, 12 de março de 2014

Um péssimo dia para ir ao parque.

Acordei me perguntando o que raios me movia.
Obviamente, a vida dentro de mim.
A vida de alguém que existe mas não sente o pulsar lancinante da vitalidade.
Irônico.
O mesmo pulsar que me fez sentir viva há algum tempo atrás, agora faz com que eu sinta dezenas e mais dezenas de sacolas plásticas murchando dentro do coração.
Vejo as cores de um parque de diversão desbotarem. Os brinquedos começam a ranger lentamente cedendo à ferrugem. As crianças vomitam, sentem-se tontas e vão embora uma a uma.
As flores que decoram os cantos, vão acinzentando e o tempo começa a nublar.
Num canto frio do parque eu me sento e olho o mundo colorido e virginal perder seu tom.
Mas as contas pra pagar aumentam e de nada adiantaria observar o parque de longe, era preciso caminhar por ele e resolver as questões.
Entro no camarim cheirando à mofo, pego a sombra preta e passo nos olhos, respirando fundo demais pra não deixar que as lágrimas tenham a ousadia de rolar por este rosto.
Passo o lápis de olho e tudo à minha volta soa absolutamente ridiculo.
É a vez do blush tirar o tom cadavérico das bochechas. O mundo precisa pensar que eu sobrevivi às agruras de um parque estragado. O mundo precisa saber que eu estou de pé, pensando que eu estou consertando um brinquedo de cada vez, regando uma planta de cada vez.
Aceno sorridente para as pessoas de fora do parque, quando no fundo, tenho vontade de estrangulá-las com as ferramentas que sobraram.
Entrem no meu parque! Sintam-se à vontade! E não reparem o cheiro de merda, a tinta descascada e os ganidos caninos ecoando como num filme de terror.
Está tudo uma bosta, mas fiquem tranquilos! Tá vendo essa merda do blush nas minhas bochechas? É vitalidade pura! Tá vendo aquela roda gigante? Logo logo estará funcionando como nova, mas pode subir. Mas não me responsabilizo se você cair e estourar seus miolos no chão. Estes miolos da tua vida pequena e superficial, rasa, sem graça e sem sal.
É tudo uma bosta! Mas eu? Estou firme e forte trabalhando, estou ótima! Não vê meus cabelos perfeitos, meu gloss envolvente?
Um a um vão adentrando ao meu recinto e um a um começam a sentir o peso da minha dor.
E começam finalmente a entender que NÃO! Eu não me importo com os seus achismos estúpidos, a única coisa que eles fazem é me incomodar e ter vontade de partir sua cara no meio. Eu não me importo com seu bom humor, com seu ego, com sua fama, com seus músculos e com seus saltos. Porque a vida de todos vocês é tragicamente medíocre, e acho até que um pouco mais medíocre do que se tornou a minha.
Porque eu estou largada às traças mas pelo menos eu tenho alguma coisa, ainda que a única coisa seja a dor.
Melhor do que não ter nada, não ser nada ainda que parecer ser alguma coisa.
É dor, mas é dor real.
E essa dor me move ao menos para escrever. E a tua dor, torna-te ainda mais mesquinho e hipócrita.
Dor por dor, a minha eu ainda encaro.

Um bolo de chocolate ruim.

Mais um daqueles fatídicos dias onde fico me perguntando mas o que raios foi que aconteceu.
Parece de repente que acordei de um sonho dentro de uma vida da qual lamento praticamente todo o tempo em que estou acordada.
E não, não tenho um câncer, familiares amados doentes e nem atropelei alguém. Mas às vezes sinto um rombo do tamanho do universo me engolindo por dentro...e sabe o que é pior? Em 90% do tempo eu estou engolindo este rombo também, porque não posso demonstrar a minha angústia desesperadora de às vezes querer morrer e sumir.
Tenho tido uma vontade gutural de sumir daqui, no entanto, o que adiantaria? Os mesmos litros de lágrimas que derramo aqui, provavelmente derramaria também em Paris ou no bairro do Bom Retiro.
Tudo isso porque simplesmente um dia percebi que não estava entendendo absolutamente nada a respeito de mim e da minha vida. e hoje, Março de 2014, percebo que...hahaha...ainda não entendo nada.
O que sei é o que sinto, mas não sei exatamente descrever. É como uma nostalgia que sobe do coração para os olhos e me traz a sensação de estar tentando preencher meu estômago faminto com nuvens. Ou seja, tento preencher um vazio com algo ainda mais vazio e eu não sei o que fazer.
O ponto é exatamente este: eu não sei o que fazer.
Me vejo cercada do meu psicanalista, meu psiquiatra, meus remédios, minhas loucuras e minhas lágrimas e eu não faço a menor ideia de onde estou e muito menos para onde vou.
É uma dor que só quem perdeu a oportunidade de ser amado de verdade, sabe. Quando a gente vê o amor de perto, a gente é capaz de reconhecê-lo em qualquer lugar. E a dor vem justamente quando a gente procura ele em outros cantos e acha apenas coisas que não tem nada a ver com isso. É como um dia acordar com girassóis e nos outros dias tentar procurar sua graça e seu perfume em peças de lego e pães de leite. Não é a mesma coisa. Nunca será a mesma coisa.
E talvez eu jamais encontre a leveza dos girassóis na minha vida.
Que irônico.
Alguém que buscou tanto a felicidade, tanto, tanto...e acabou por se tornar infeliz.
Sei que a nossa felicidade não deve ser procurada em ninguém, a não ser dentro de nós mesmos, mas todos gostam de receber amor. E quando a gente vive uma vida sem o amor, a gente apenas vive uma vida. Simplesmente.
Eu absolutamente cansei de escrever absolutamente.
Eu absolutamente cansei de acordar na vida que sempre quis, sem a felicidade que sempre quis.
É como passar uma janta inteira a espera do bolo de chocolate perfeito e quando ele vem, vem seco e amargo.
A minha vida tornou-se o bolo de chocolate perfeito, porém seco e amargo.
Não há amor de verdade.
Há doença, mas não amor.
Há loucura, mas não amor.
E eu não posso me dar ao luxo de sentir falta dos meus girassóis, pois fui eu quem os amassou por uma possível ilusão de que eles me incomodavam. Só que quando eu os amassei, meu jardim ficou absolutamente ridículo.
Sem graça, sem riso, sem nada.
E se eu começar a elencar tudo aquilo do qual sinto saudade, sinto que vou chorar uma eternidade e corro o risco de secar para sempre.
Mas talvez seja melhor se eu falar. Porque pensar já dói o suficiente, mas escrever é escancarar a ferida. Acho que já sei o que fazer. Talvez seja a pior merda que eu faça.Mas...a sucessão de merdas já é uma constante em minha vida. Eu vou fazer. E mais uma vez...seja o que Deus quiser.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Uma versão melhor.

Cansada de gente que mal saiu das fraldas e mal tem pêlos na periquita e já acha que sabe alguma coisa dessa bosta.
Eu tenho quase 30 e eu mal sei quem sou eu.
Embora eu não devesse me incomodar, porque quando eu mal tinha pêlos na periquita, quem achava que sabia alguma coisa sobre o mundo, era eu.
E eu não sei que mania idiota é essa dos adolescentes de acharem que sabem alguma coisa, sendo que a única coisa que sabem é vestir seus shortinhos enfiados no toba e sair por aí desfilando com seus cigarros acesos na mão, entupindo-se do câncer que um dia vai devorá-los quando eles estiverem com voz de pitchshifter no grave. E quando estiverem com voz de pitchshifter no grave, com as rugas quase cobrindo-lhe os olhos e quando o fedô da fumaça já estiver lhes impregnado todos os poros, tenho absoluta certeza que nem o mais bisonho dos obcecados achará interessante.
Aos 29 anos eu pago minhas contas, choro com minhas dívidas, tenho que fazer malabares entre me limpar e limpar o cocô das minhas duas cachorras, colocar o lixo na rua, pagar o aluguel em dia e tentar mudar um chroma key que não precisa ser mudado mas que a chefe achou que precisa.
E ainda assim, olhando-me no espelho todos os dias enquanto passo óleo de argan nos cabelos para que fiquem perfeitos, eu congelo por alguns segundos me olhando nos olhos, sem sequer saber direito no que me tornei ou estou me tornando.
Mas quer saber de alguma coisa? Eu sequer posso reclamar, porque isso é absolutamente tudo o que eu sempre quis, e como bem sabemos, a gente tem mania de reclamar de tudo.
Eu olho pra trás e por muitas vezes dou risada da coleção de merdas que já aprontei. Por outras vezes me sinto uma perfeita imbecil, já que continuo deixando alguns rastros da minha imaturidade e inconsequência adolescente por aí.
Mas talvez isso seja melhor do que viver uma vida pacata e sem graça lotada de certezas.
Acho que se a gente tem certeza de tudo, já podemos escolher a cor da mortalha e voilá! Ir pro céu ter a certeza da previsão do tempo com São Pedro enquanto ele faz rastafari em suas barbas.
Há pouco tempo atrás eu achava mesmo que a vida era feita de riscos. E por isso me arrisquei e não foi pouco. Mas nessas indas e vindas de riscos e rabiscos, algumas coisas deram errado e acho que me rabisquei demais. E então comecei a pensar se realmente valia a pena correr certos riscos já que alguns dão tão errado que parece que se emaranham num nó de escoteiro impossível de ser desfeito.
Talvez eu tenha dado um pouco de azar nas escolhas. Talvez, mais pra frente eu descubra que todas elas contribuíram para uma possível escolha incrível que mude minha vida.
Não sei.
O que sei por hora, é que as certezas me cansam. E que as minhas certezas são tão mutantes quanto um vírus. E entre uma merda e outra, entre a raiva e as poucas certezas, a única certeza que fica é que ainda assim eu não me trocaria por ninguém. A não ser, por uma versão melhor de mim mesma.

Enalteça-me

"Enalteça-me" - pedi a ele. "A função de um amigo é esta"
"Ah mas você sabe como estou, não tenho palavras para enaltecer agora".
"Ok, vou continuar sentindo que tá faltando alguma coisa".
A verdade é que não há nada melhor do que um viado pra te enaltecer e pra te por pra baixo.
Mas a questão é que as mentiras das melhores amigas também são deliciosas, principalmente quando encontram defeito nas pessoas que você odeia.
Eu particularmente sou maravilhosa para colocar defeitos, inclusive em mim.
Eu já toquei neste assunto antes, mas é que tem algumas coisas que realmente me incomodam.
As pessoas às vezes dizem que sou maldosa, mas não é verdade, é que meus xingos são criativos e ditos com ênfase.
Sabe, eu tenho um ódio que beira à loucura. Eu digo beira, porque por ódio pessoas já destruíram pessoa e eu jamais faria isso. Mas é aquele ódio que chega a arrepiar os pelos do braço, chega a dar enjôo de estômago.
E as pessoas dizem que ódio dá câncer e infelicidade. 
Será que eu deveria ter medo de ter câncer ou infelicidade?
Sabe, eu acho que não. Porque meu amor também beira à loucura e eu acho que dá um equilíbrio nas consequências do caos. Mas só nas consequências, porque talvez meu coração seja tão desequilibrado, que se colocá-lo na balança, a balança não vai saber se é um coração ou uma oração. E se ele é muito pesado ou muito leve. Ou se ele é muito preso ou muito livre.
Eu mesma não saberia te dizer.
O que sei por hora é que meus sentimentos são esquisitíssimos, mas que eu me entendo.
Mas é uma loucura tão grande que não posso exigir que as pessoas ententam.
Quando dizem que aquariano gosta de ser livre, talvez seja porque eles se sentem presos demais. Talvez porque sintam demais. E esse desejo de liberdade é intrínseco.
E quando eu digo livrar-me, eu digo livrar-me do ódio, do amor e da loucura.
Ser um ser humano completamente indiferente e sem graça.
Exatamente assim
Como a maioria das pessoas que boiam ao sabor das ondas patéticas da vida.
A gente sofre, sofre, mas gosta.
No fundo no fundo eu tô doida pra doer mais um pouquinho, só pra tentar escrever um texto decente e morrer de orgulho de mim.
Fato.
Ainda não é este.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Um texto chamado Dinho

Ah, menino... Você tem o mundo nas mãos, só não deixe escorrer.
Porque se escorre você fica vazio, tal qual arrepio sem ter um porquê.
Teus gestos tocam a lua, tua voz reverbera nos pátios...
Você, a voz dos sem voz, fortaleza dos fracos.
Que assim como eu, passa a vida esperando
Esperando e esperando, sem saber o que.
Coração impreenchível e alma inatingível
Olhar que tudo vê.
Acalma esse teu coração, aguarda porque o sonho vem
E enquanto ele não te chega, ame o que você tem.
Teus olhos lindos são pra quem conhece
E o teu carinho, pra quem não te esquece
Teus textos decoram um palco e mil corações
Fique tranquilo
Que enquanto você viver
Tua vida encantará milhões!

Pela Janela

Olho pela janela, sempre a bendita/maldita janela.
Eu sempre tive um problema com janelas.
Especialmente as minhas janelas.
Elas me fazem pensar demais, refletir demais e chegar a conclusões demais.
Porque eu vejo o mundo correr através delas.
E sinto uma mistura de pena e ódio da raça que não deu muito certo.
Os seres humanos são tão pérfidos que fizeram com que as qualidades se tornassem defeitos.
Porque são cruéis consigo mesmos.
E sendo cruéis consigo mesmo, são cruéis com os demais.

Com os burros n'água.




Fato.
A gente aprende a planejar as coisas desde pequeno e o planejamento é fundamental para que evitemos dar com os burros n'água. Certo?
Certo, porém nem sempre acontece como a gente imagina e o planejamento que às vezes passou por tantos longos processos, é evaporado como a fumaça de um cigarro na boca de uma pinup blasé. E os burros acabam mais ensopados do que os cabelos de um jogador de futebol durante um treino sob um sol de 45 graus.
Aprendi que planejamento é tudo na vida, então desde os primórdios aprendi a planejar.
O planejamento de certa forma começa quando você está prestes a sair do colégio.
O que você quer ser? Que profissão pretende seguir? Ou não pretende seguir nada? Ou pretende não pretender? Ou seguinte não pretendente? As perguntas por parte dos pais e dos professores pipocam na nossa cabeça como uma rave incessante de piolhos desesperados.
E você tem que.
Você sempre tem que.
Você tem que tomar a decisão, você tem que estudar para se destacar, você tem que decidir o que vai fazer porque na sociedade em que vivemos quem não decide o que vai fazer, não tem vez.
Eu vou ser bem sincera que desde a época do colégio, época esta inclusive onde eu era a melhor aluna em ser a pior, a coisa que eu mais queria mesmo era largar aquele monte de fórmula insuportável e a função das mitocôndrias, para fazer qualquer coisa que não fosse estar lá. Mas em relação ao tal objetivo, como sempre tive a mente um tanto quanto fértil, pra não dizer uma mente doentia, achei que publicidade seria um caminho. Afinal, eu adorava criar coisas. Criar palavras. Criar histórias. Mas aí o colégio me apresentou ao mundo do teatro, e naquelas pecinhas executadas pelos alunos, descobri o vício que é ser alimentado pelos olhares, risos e aplausos de uma plateia.
Mas enfim, nada de mal em se atriz, mas eu tinha que passar de ano. Só que as notas me ajudavam pouco e as recuperações acumulando menos ainda.
Eu não prestava atenção.
Eu não queria prestar atenção.
Eu não gostava de prestar atenção.
Preferia ficar desenhando coisas macabras na carteira e passando trote a cobrar no celular dos outros, embaixo do blusão com minha amiga sapata enquanto o professor aos berros pedia para que parássemos de atrapalhar a aula.
Convenhamos, eu não era bagunceira, mas causava um certo incômodo nos professores enquanto dormia com a cabeça embaixo da cortina ou enquanto trocava bilhetes com meio mundo de amigas.
O seno e o co-seno nunca me pegaram de jeito. Mitocôndrias muito menos e política do café com leite a única coisa que me causava era fome. A escola não me interessava. O que me interessava era escrever. Escrever poesias nas carteiras, no caderno, escrever crônicas, contos, histórias, desenhar flores, pessoas, vestidos e animais.
Mas enfim, eu tinha que decidir e não prestar o vestibular não era uma opção.
Como eu adorava escrever e escrevia muito bem, passei em publicidade na FAAP graças à redação, na qual tirei 8, pois as questões de múltipla escolha foram uma desgraça.
Olha, pra resumir bem a história, eu não fui fazer a FAAP porque era caríssimo.
Então aí começa a história de uma série de burros que acabei por deixar na água ao longo da vida.
A paixão pelo teatro gritava como uma criança com a virilha assada. Então resolvi (não planejei, resolvi) que estudaria teatro. Seria atriz, afinal, estava mais do que na cara que eu havia nascido para ser atriz. Eu sabia. Eu sentia. Eu praticamente já era!
Então eu fui.
E pra ajudar a pagar o curso no Wolf Maya, fui tentar ganhar uma grana numa profissão super condizente com a realidade de uma adolescente de 18 anos: tosadora de cães.
Bom, eu gostava de cachorros, precisava de dinheiro, então que mal tinha em fazer um curso de banho e tosa? Era por um motivo glorioso: ser atriz!
Então lá fui fazer o bendito curso de banho e tosa, o que me resultou em dores terríveis na coluna e no pescoço, por ter que ficar carregando cachorros pesados, molhados e despedaçados de uma mesa para outra, de um tanque para o outro.
Depois de algumas tosas mal sucedidas, achei melhor parar com aquilo.
Fui procurar um emprego que pudesse valer a pena. Mas recém saída da escola e sem experiência nenhuma, a única coisa que restou foi trabalhar num telemarketing ativo, onde não durei 3 dias.
Dá pra ver que minha vida é cheia de glórias, certo?
Eu sempre desejei as coisas muito intensamente, mas tenho horror a ser infeliz. E o modelo "sentada ouvindo reclamação de gente grossa e mal comida para no final do mês receber um salário tão pequeno quanto os instintos de caridade de um psicopata" não era bem um modelo que me agradava.
Pedi as contas.
E mais uma vez estava eu sem saber que rumo dar à minha vida.
Mas ok, tudo isso não me impediu de estudar no Wolf Maya.
Eu fui. Passei no teste. Foi uma alegria. Uma alegria que durou 6 meses, porque obviamente quando consegui aquilo que queria, vi que aquilo que eu queria não era bem aquilo que eu queria. Além disso o curso, na minha opinião, era raso e sem perspectivas.
Decidi então tentar de outra forma e fazer faculdade de teatro.
E fui.
Novamente.
Prestei o vestibular. Passei. Foi uma alegria.
Uma alegria que durou 1 ano, pois percebi que aquilo que eu queria não era bem aquilo que eu queria. Certa vez me caiu uma ficha que fez com que eu acreditasse que não ia rolar ser atriz. E não rolou.
Então saí da faculdade de teatro e resolvi ir pra um lugar onde hahaha houvesse perspectiva.
Fui prestar novamente pra publicidade.
Prestei o vestibular.
Passei.
Foi uma alegria.
Uma alegria que durou 2 anos, pois percebi que aquilo que eu queria não era bem aquilo que eu queria.
Mas pelo menos consegui pegar um diploma de tecnólogo em gestão de comunicação empresarial e posso hoje dizer que tenho um curso superior.
Mas depois disso ainda tive muitas peripécias.
Trabalhei no faturamento de uma loja de ar condicionado, ainda voltei a trabalhar como telemarketing (desta vez no receptivo da Atento) e anos depois comecei a trabalhar com vídeo.
Sim, de uma quase-tosadora, quase-atriz e ex-telemarketing, fui parar na área de vídeo.
Anos se passaram.
Anos o suficiente pra eu começar a já me preocupar em passar renew. E já com meus 25 e tralalá resolvi que meus burros uma hora iam acabar mofando dentro da água e definitivamente estava na hora de passar neles um secador.
Graças a um acontecimento que na época pra mim foi a pior coisa do mundo, hoje posso dizer que ando com meus burros mais secos do que o Roberto Justus no Aprendiz. Um acontecimento que me impulsionou a querer uma coisa de verdade, talvez mais de verdade do que das outras vezes.
Então eu ralei.
Ralei.
Ralei mais que um bloco de parmesão na fábrica dos queijos Teixeira.
Chutei móveis.
Mordi paredes.
Mastiguei pedaços de mim.
Mas depois de muito
Muito tempo
Depois de trabalhar feito uma escrava precisada, passar noites em claro, sem direito à feriados, férias ou finais de semana,consegui o que eu realmente sempre quis desde o começo: o primeiro passo para a minha independência.
Bem, a data do casamento com meu noivo estava marcada, tudo acertado e os modelos do vestido de noiva, salvos no email. Eu finalmente seria o modelo correto de felicidade e sucesso exatamente igual às minhas amigas do colegial e da faculdade que postam suas fotos de noiva no facebook e algum tempo depois exibem seus bebês lindos, gordos e rosados com seus sorrisos perfeitamente desdentados e assimétricos.
Eu estava caminhando para a felicidade. Para o sucesso.
Estava fazendo tudo certo, como sempre deveria ter feito. Estava falando de buffets, como a maioria delas. Estava escolhendo vestidos, como a maioria delas. Estava pensando na decoração, como a maioria delas. E em poucos meses eu teria um bebê gordo e cor-de-rosa para exibir no meu facebook e postaria vídeos dele falando "mamã" ou "abafutsfa".
Estava tudo certo.
Estava tudo no lugar.
As caixinhas separadas por ordem alfabética e em degradê.
Eu amava a família dele. Ele amava a minha família e as duas famílias se amavam.
De fato seria bonito, isso eu não posso negar.
Só que se você parar de ler este texto aqui e voltar a história, vai perceber que eu tenho uma tendência para dar com meus famigerados burros na água.
Eu não sou convencional.
E muito do que planejei não deu certo.
E minha vida foi uma tentativa dramática de fazer dar certo e muitas vezes não deu.
E eu só queria ser feliz.
E eu só queria dar orgulho para as pessoas que me amam, porque eu fazia tudo errado.
E que eu
Sou completamente pirada.
Você pode até rir das minhas desordens, mas eles me dão muito mais rumo do que organizar a minha vida por ordem alfabética em caixinhas degradê. E se uma hora eu dei com os burros n'água, hoje eles estão secos e lustrosos. Mas eu sei no meu íntimo, que às vezes fica calor demais, e aí...
Você já viu né?
Mais uma vez não saiu como planejado e eu deixei um rastro de caos pelo meu caminho.
E talvez quando eu menos imaginar, entre tapas e beijos, voltas e desvoltas, incertezas e marshmallows, talvez eu apareça com um bebê gorducho na barriga, e dê a ele um nome que não tem nada a ver com esses aí que vocês dão para os seus.
O que posso dizer por hora é que eu não me casei porque acabei me apaixonando por outra pessoa. Com a grana toda do casamento eu resolvi alugar uma casa e descolar duas cachorras, sendo que uma delas come paredes, roupas e mangueiras e que é pau mandado da outra que é cem mil vezes menor que ela. E que além de tudo isso eu tenho bule de vaca, paredes roxas e um tapete monocromático. Além de 2 hamsters mais dóceis do que espíritos de luz querendo passar mensagens de paz num centro de mesa branca.
Às vezes moro com meu namorado, às vezes não. Às vezes a gente tem vontade de se atirar panelas mas acordamos abraçados juntinhos.
Às vezes a gente fala até de se casar no papel, mesmo sendo eu como água e ele como óleo, mas quer saber?
A gente planeja, a vida vai lá e desplaneja. E além disso, mesmo eu tendo vontade de matar ele às vezes, os cachos daquele cabelo ficam insuperáveis quando bate um vento de praia.
Minha mãe ri da minha situação, é certo que acha absurdo, como tudo o que eu faço.
Mas mãe, a senhora já não tá acostumada?
Tua filha aqui vive dando com os burros n'água
E talvez este seja o meu jeito torto
De manter a minha vida certa.
A propósito.
Aos 29 estou começando uma faculdade nova, desta vez de jornalismo.
Vamos ver até quando dura essa felicidade?
De repente, se eu não planejar, vai que acabo me formando?
Rsrs