Fato.
A gente aprende a planejar as coisas desde
pequeno e o planejamento é fundamental para que evitemos dar com os burros
n'água. Certo?
Certo, porém nem sempre acontece como a gente
imagina e o planejamento que às vezes passou por tantos longos processos, é
evaporado como a fumaça de um cigarro na boca de uma pinup blasé. E os burros
acabam mais ensopados do que os cabelos de um jogador de futebol durante um
treino sob um sol de 45 graus.
Aprendi que planejamento é tudo na vida, então
desde os primórdios aprendi a planejar.
O planejamento de certa forma começa quando você
está prestes a sair do colégio.
O que você quer ser? Que profissão pretende
seguir? Ou não pretende seguir nada? Ou pretende não pretender? Ou seguinte não
pretendente? As perguntas por parte dos pais e dos professores pipocam na nossa
cabeça como uma rave incessante de piolhos desesperados.
E você tem que.
Você sempre tem que.
Você tem que tomar a decisão, você tem que
estudar para se destacar, você tem que decidir o que vai fazer porque na
sociedade em que vivemos quem não decide o que vai fazer, não tem vez.
Eu vou ser bem sincera que desde a época do
colégio, época esta inclusive onde eu era a melhor aluna em ser a pior, a coisa
que eu mais queria mesmo era largar aquele monte de fórmula insuportável e a
função das mitocôndrias, para fazer qualquer coisa que não fosse estar lá. Mas
em relação ao tal objetivo, como sempre tive a mente um tanto quanto fértil,
pra não dizer uma mente doentia, achei que publicidade seria um caminho.
Afinal, eu adorava criar coisas. Criar palavras. Criar histórias. Mas aí o
colégio me apresentou ao mundo do teatro, e naquelas pecinhas executadas pelos
alunos, descobri o vício que é ser alimentado pelos olhares, risos e aplausos
de uma plateia.
Mas enfim, nada de mal em se atriz, mas eu tinha
que passar de ano. Só que as notas me ajudavam pouco e as recuperações
acumulando menos ainda.
Eu não prestava atenção.
Eu não queria prestar atenção.
Eu não gostava de prestar atenção.
Preferia ficar desenhando coisas macabras na
carteira e passando trote a cobrar no celular dos outros, embaixo do blusão com
minha amiga sapata enquanto o professor aos berros pedia para que parássemos de
atrapalhar a aula.
Convenhamos, eu não era bagunceira, mas causava
um certo incômodo nos professores enquanto dormia com a cabeça embaixo da
cortina ou enquanto trocava bilhetes com meio mundo de amigas.
O seno e o co-seno nunca me pegaram de jeito.
Mitocôndrias muito menos e política do café com leite a única coisa que me
causava era fome. A escola não me interessava. O que me interessava era
escrever. Escrever poesias nas carteiras, no caderno, escrever crônicas,
contos, histórias, desenhar flores, pessoas, vestidos e animais.
Mas enfim, eu tinha que decidir e não prestar o
vestibular não era uma opção.
Como eu adorava escrever e escrevia muito bem,
passei em publicidade na FAAP graças à redação, na qual tirei 8, pois as questões
de múltipla escolha foram uma desgraça.
Olha, pra resumir bem a história, eu não fui
fazer a FAAP porque era caríssimo.
Então aí começa a história de uma série de
burros que acabei por deixar na água ao longo da vida.
A paixão pelo teatro gritava como uma criança
com a virilha assada. Então resolvi (não planejei, resolvi) que estudaria
teatro. Seria atriz, afinal, estava mais do que na cara que eu havia nascido
para ser atriz. Eu sabia. Eu sentia. Eu praticamente já era!
Então eu fui.
E pra ajudar a pagar o curso no Wolf Maya, fui
tentar ganhar uma grana numa profissão super condizente com a realidade de uma
adolescente de 18 anos: tosadora de cães.
Bom, eu gostava de cachorros, precisava de
dinheiro, então que mal tinha em fazer um curso de banho e tosa? Era por um
motivo glorioso: ser atriz!
Então lá fui fazer o bendito curso de banho e
tosa, o que me resultou em dores terríveis na coluna e no pescoço, por ter que
ficar carregando cachorros pesados, molhados e despedaçados de uma mesa para
outra, de um tanque para o outro.
Depois de algumas tosas mal sucedidas, achei
melhor parar com aquilo.
Fui procurar um emprego que pudesse valer a
pena. Mas recém saída da escola e sem experiência nenhuma, a única coisa que
restou foi trabalhar num telemarketing ativo, onde não durei 3 dias.
Dá pra ver que minha vida é cheia de glórias,
certo?
Eu sempre desejei as coisas muito intensamente,
mas tenho horror a ser infeliz. E o modelo "sentada ouvindo reclamação de
gente grossa e mal comida para no final do mês receber um salário tão pequeno
quanto os instintos de caridade de um psicopata" não era bem um modelo que
me agradava.
Pedi as contas.
E mais uma vez estava eu sem saber que rumo dar
à minha vida.
Mas ok, tudo isso não me impediu de estudar no
Wolf Maya.
Eu fui. Passei no teste. Foi uma alegria. Uma
alegria que durou 6 meses, porque obviamente quando consegui aquilo que queria,
vi que aquilo que eu queria não era bem aquilo que eu queria. Além disso o
curso, na minha opinião, era raso e sem perspectivas.
Decidi então tentar de outra forma e fazer
faculdade de teatro.
E fui.
Novamente.
Prestei o vestibular. Passei. Foi uma alegria.
Uma alegria que durou 1 ano, pois percebi que
aquilo que eu queria não era bem aquilo que eu queria. Certa vez me caiu uma
ficha que fez com que eu acreditasse que não ia rolar ser atriz. E não rolou.
Então saí da faculdade de teatro e resolvi ir
pra um lugar onde hahaha houvesse perspectiva.
Fui prestar novamente pra publicidade.
Prestei o vestibular.
Passei.
Foi uma alegria.
Uma alegria que durou 2 anos, pois percebi que
aquilo que eu queria não era bem aquilo que eu queria.
Mas pelo menos consegui pegar um diploma de
tecnólogo em gestão de comunicação empresarial e posso hoje dizer que tenho um
curso superior.
Mas depois disso ainda tive muitas peripécias.
Trabalhei no faturamento de uma loja de ar
condicionado, ainda voltei a trabalhar como telemarketing (desta vez no
receptivo da Atento) e anos depois comecei a trabalhar com vídeo.
Sim, de uma quase-tosadora, quase-atriz e
ex-telemarketing, fui parar na área de vídeo.
Anos se passaram.
Anos o suficiente pra eu começar a já me
preocupar em passar renew. E já com meus 25 e tralalá resolvi que meus burros
uma hora iam acabar mofando dentro da água e definitivamente estava na hora de
passar neles um secador.
Graças a um acontecimento que na época pra mim
foi a pior coisa do mundo, hoje posso dizer que ando com meus burros mais secos
do que o Roberto Justus no Aprendiz. Um acontecimento que me impulsionou a
querer uma coisa de verdade, talvez mais de verdade do que das outras vezes.
Então eu ralei.
Ralei.
Ralei mais que um bloco de parmesão na fábrica
dos queijos Teixeira.
Chutei móveis.
Mordi paredes.
Mastiguei pedaços de mim.
Mas depois de muito
Muito tempo
Depois de trabalhar feito uma escrava precisada,
passar noites em claro, sem direito à feriados, férias ou finais de
semana,consegui o que eu realmente sempre quis desde o começo: o primeiro passo
para a minha independência.
Bem, a data do casamento com meu noivo estava
marcada, tudo acertado e os modelos do vestido de noiva, salvos no email. Eu
finalmente seria o modelo correto de felicidade e sucesso exatamente igual às
minhas amigas do colegial e da faculdade que postam suas fotos de noiva no
facebook e algum tempo depois exibem seus bebês lindos, gordos e rosados com
seus sorrisos perfeitamente desdentados e assimétricos.
Eu estava caminhando para a felicidade. Para o
sucesso.
Estava fazendo tudo certo, como sempre deveria
ter feito. Estava falando de buffets, como a maioria delas. Estava escolhendo
vestidos, como a maioria delas. Estava pensando na decoração, como a maioria
delas. E em poucos meses eu teria um bebê gordo e cor-de-rosa para exibir no
meu facebook e postaria vídeos dele falando "mamã" ou
"abafutsfa".
Estava tudo certo.
Estava tudo no lugar.
As caixinhas separadas por ordem alfabética e em
degradê.
Eu amava a família dele. Ele amava a minha família
e as duas famílias se amavam.
De fato seria bonito, isso eu não posso negar.
Só que se você parar de ler este texto aqui e
voltar a história, vai perceber que eu tenho uma tendência para dar com meus
famigerados burros na água.
Eu não sou convencional.
E muito do que planejei não deu certo.
E minha vida foi uma tentativa dramática de
fazer dar certo e muitas vezes não deu.
E eu só queria ser feliz.
E eu só queria dar orgulho para as pessoas que
me amam, porque eu fazia tudo errado.
E que eu
Sou completamente pirada.
Você pode até rir das minhas desordens, mas eles
me dão muito mais rumo do que organizar a minha vida por ordem alfabética em
caixinhas degradê. E se uma hora eu dei com os burros n'água, hoje eles estão
secos e lustrosos. Mas eu sei no meu íntimo, que às vezes fica calor demais, e
aí...
Você já viu né?
Mais uma vez não saiu como planejado e eu deixei
um rastro de caos pelo meu caminho.
E talvez quando eu menos imaginar, entre tapas e
beijos, voltas e desvoltas, incertezas e marshmallows, talvez eu apareça com um
bebê gorducho na barriga, e dê a ele um nome que não tem nada a ver com esses
aí que vocês dão para os seus.
O que posso dizer por hora é que eu não me casei
porque acabei me apaixonando por outra pessoa. Com a grana toda do casamento eu
resolvi alugar uma casa e descolar duas cachorras, sendo que uma delas come
paredes, roupas e mangueiras e que é pau mandado da outra que é cem mil vezes
menor que ela. E que além de tudo isso eu tenho bule de vaca, paredes roxas e
um tapete monocromático. Além de 2 hamsters mais dóceis do que espíritos de luz
querendo passar mensagens de paz num centro de mesa branca.
Às vezes moro com meu namorado, às vezes não. Às
vezes a gente tem vontade de se atirar panelas mas acordamos abraçados juntinhos.
Às vezes a gente fala até de se casar no papel,
mesmo sendo eu como água e ele como óleo, mas quer saber?
A gente planeja, a vida vai lá e desplaneja. E
além disso, mesmo eu tendo vontade de matar ele às vezes, os cachos daquele
cabelo ficam insuperáveis quando bate um vento de praia.
Minha mãe ri da minha situação, é certo que acha
absurdo, como tudo o que eu faço.
Mas mãe, a senhora já não tá acostumada?
Tua filha aqui vive dando com os burros n'água
E talvez este seja o meu jeito torto
De manter a minha vida certa.
A propósito.
Aos 29 estou começando uma faculdade nova, desta
vez de jornalismo.
Vamos ver até quando dura essa felicidade?
De repente, se eu não planejar, vai que acabo me
formando?
Rsrs